segunda-feira, 28 de novembro de 2011

CRITÉRIOS DE DISCERNIMENTO


               Apresentamos um resumo de dois capítulos do livro: ‘Les révélations dans l’Église’ de Laurent Volken, Mulhouse, Editions Salvator, 1961. O autor, padre saletino, escreveu este livro quando residia em Roma, no Colégio Saletino. Estes dois capítulos, o sexto e o sétimo, podem ajudar a orientar-se no discernimento de presumidas aparições ou revelações.


                Jesus mesmo afirmava que haveria falsos profetas, que fariam grandes prodígios para seduzir os eleitos:“Então se alguém vos disser: Olha o Cristo aqui ou ali, não creiais. Pois hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possível, até mesmo os eleitos. Eis que eu vo-lo predisse” (Mt 24,23-24).

                Como, então, conseguir fazer um discernimento de tais fatos? Não é fácil, mas também não é impossível. Deus oferece aos seus filhos critérios que permitem discernir as revelações verdadeiras das falsas ou diabólicas. Antes, porém, de pensar em algo diabólico, temos que ver se o caso se situa entre as forças da natureza (clarividência, telepatia, etc) ou entre as fraquezas humanas (histeria, esquizofrenia, etc). Neste segundo caso, em casos extremos, recorre-se também ao exorcismo.

CRITÉRIOS INTRÍNSECOS DE DISCERNIMENTO

                O discernimento é um dos dons que S. Paulo  cita na enumeração dos carismas (“a outro, o poder de fazer milagres; a outro, o discernimento dos espíritos...” Cor 12,10).

                Sem um dom especial, não se pode fazer um discernimento seguro.

"Quem, pois, dentre os homens conhece o que é do homem, senão o espírito do homem que nele está?  Da mesma forma, o que está em Deus, ninguém o conhece senão o Espírito de Deus. Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus” (1Cor 2,11-12).

                Para chegar ao discernimento, há um caminho carismático, mas há também a indagação humana, iluminada pela fé. Em vista do discernimento, consideram-se estes critérios intrínsecos:

1. O conteúdo das revelações


                Deve-se averiguar se o conteúdo de uma revelação é conforme à doutrina da Igreja Católica. Pode-se rejeitar a priori toda revelação cujo conteúdo seja contrário à doutrina da Igreja.

                “Não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus, pois muitos falsos profetas vieram ao mundo. Nisto reconheceis o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne  é de Deus; e todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus;  é este o espírito do anticristo. Dele ouvistes dizer que ele virá e agora ele já está neste mundo”(1Jo 4,1-3).

                Este critério não é fácil, pois sempre existem visões teológicas, posições pessoais, maneiras diferentes  de pensar a questão. Também é bom ter presente a lei da adaptação divina à vida humana da pessoa, para discernir o verdadeiro sentido da revelação.

                Lembrar também que o texto apresentado como uma revelação  e que não contém nada contra o ensinamento da Escritura e da Tradição, não constitui uma prova para a autenticidade de uma revelação.

2.  Os critérios da pessoa que recebe a revelação

                “Quid recipitur,  ad modum recipiendi recipitur” diziam os antigos, isto é, "O que se recebe, é recebido conforme o modo de ser de quem o recebe."

                Toda comunicação humana sofre uma mudança do sujeito em que atua e para chegar ao discernimento é necessário perceber até onde chega a mudança da coisa comunicada. "Ficou intacta a substância da comunicação?" Somos forçados a analisar, então, aspectos particulares da pessoa sujeita a revelações, quais por exemplo:

a) aspecto fisiológico

                Não se podem admitir critérios discriminatórios, como por exemplo ser mulher, ter pouco estudo, ser de condições sociais baixas, etc. A diversidade de sexo ou de outra coisa não exige critérios diferentes de discernimento.

                Outros fatores podem intervir no discernimento do ponto de vista físico, por exemplo:

                a doença: não é verdade que uma doença psíquica seja necessariamente uma prova contra a autenticidade de uma revelação, mas há doenças que a excluem como o mal de Parkinson e lesões cerebrais, que causam alucinações auditivas;

                a idade: numa criança não se consegue pensar um desdobramento de personalidade, mas poderia existir algo psicológico. (Cf.. aspecto psicológico).

b) aspecto psicológico

                O diagnóstico  médico, que confirma a perfeita saúde e equilíbrio psicológico do sujeito que apresenta uma revelação extraordinária, constitui um elemento positivo para um julgamento favorável.

                Não só sintomas patológicos, mas também aspectos normais de psicologia podem influir no discernimento, como,

Não só sintomas patológicos, mas também aspectos normais de psicologia podem influir no discernimento, como, por exemplo, uma inteligência aguda ou uma fantasia exuberante. Atenção quando o sujeito tem uma vontade demasiada de aparecer ou de destacar-se.

                É bom desconfiar dos confidentes, que possuem uma instabilidade de constituição psicológica, uma hiper-sensibilidade, uma excessiva impressionabilidade.

                Também a mentira é critério negativo, quer nasça de um fator psíquico, quer se manifeste como ato de ordem moral.

c) aspecto moral

                Para receber uma revelação  de Deus não se exige uma vida moralmente perfeita. Graves defeitos morais são sinais desfavoráveis, mas não constituem um critério negativo.

Alguns defeitos, porém, o constituem como a mentira e talvez a indiscrição, mas a mentira sem dúvida. Deus não pode revelar-se num coração mentiroso.

Três virtudes, sobretudo, chamam a atenção positivamente:

                A humildade, sentir-se pequeno diante de Deus e sincero e justo com os irmãos.

                A fortaleza, para resistir a oposições, calúnias, tentações, ameaças, fofocas, etc.

                A obediência, que não busca seus próprios interesses, mas obedece a Deus e à Hierarquia da Igreja.

3. Os critérios das circunstâncias

                Também as circunstâncias nas quais acontece uma revelação são importantes para um discernimento de presumidas aparições. Assinalam-se:


1. A finalidade: verificar as intenções do confidente, seguir a revelação sem interesse próprio, sem proveito pessoal, sem querer aparecer,  sem querer conseguir destaque na sociedade, nem vantagens materiais.
 
2. A forma: não se consideram revelações onde aparecem coisas ou pessoas deformadas (deformação moral, atitudes falsas, maneiras indecentes..)

 3. A maneira: o discernimento será o mesmo, ainda que a revelação se dê pelos sentidos externos, pela imaginação ou pela inteligência. Uma revelação sob forma de sonho deixa pouca garantia para um discernimento positivo.

 4.  O tempo: nenhum tempo especial é reservado para a revelação, podendo ser ao dia ou à noite, à luz do sol ou na escuridão da noite. De dia parece melhor porque durante à noite a impressionabilidade parece ser maior. Importante considerar também o momento histórico em que se realiza a aparição.

 5. O lugar: não há lugar fixo ou reservado para uma aparição ou uma revelação , embora a Igreja, por si, seria o lugar mais indicado.

 6. Outras modalidades: podem acontecer coisas maravilhosas, fenomenos diferentes na natureza. Também estas coisas podem ser consideradas, embora nenhuma delas, por si, seja um elemento positivo de discernimento.

CRITÉRIOS EXTRÍNSECOS

 Consideram-se sobretudo dois critérios extrínsecos no discernimento de uma aparição: o milagre e a autoridade da Igreja.


1. Os milagres, como critério no discernimento

                Entende-se como milagre um fato sensível, realizado por Deus, que supera as forças da natureza, isto é, apresenta-se como obra de Deus que supera toda possibilidade da criatura.
        
                Também para Jesus os milagres eram um sinal externo para comprovar a sua missão:

 “Se não faço as obras de meu Pai, não acrediteis em mim; mas,se as faço, mesmo que não acrediteis em mim, crede nas obras, a fim de conhecerdes e conhecerdes sempre mais que o Pai está em mim e Eu no Pai” (Jo 10, 37-38). 

“Eu porém tenho um testemunho maior que o de João: as obras que o Pai me encarregou de consumar. Tais obras eu as faço e elas dão testemunho de mim." (Jo 5, 36-37).

                É neste mesmo sentido que se pronuncia a Igreja quando no Concílio Vaticano Iº afirma:          

“Deus quis acrescentar à ajuda interior do Espírito Santo, as provas externas de sua revelação, que são os fatos sobrenaturais e, de forma particular, os milagres e as profecias. São provas muitos seguras e apropriadas à inteligência de todos porque manifestam de maneira excelente a onipotência de Deus e a sua ciência infinita” (Denz. 1790).

                Isto se aplica à Revelação, mas, com as devidas proporções, esta mesma lei se aplica a aparição particular. Se Deus quer agir de forma extraordinária sobre os homens por meio destas revelações, oferece também  provas, entre as quais os milagres têm um lugar de importância toda especial.

                S. Tomás afirma: “Todo milagre é um testemunho. Às vezes, é um testemunho para a verdade, que se anuncia; outras vezes, é um testemunho para a pessoa que o realiza. Ora, todo milagre é realizado unicamente por Deus... O milagre é garantia da verdade mais do que a santidade da pessoa que o anuncia... Os milagres são sinais sensíveis para manifestar uma verdade..”

                Duas condições para o milagre poder ser critério de discernimento:

1. E' preciso que seja verdadeiro

2. Que seja realizado como testemunho da aparição:

a) A veracidade do milagre supõe que este possa ser discernido, pois os milagres são mais facilmente discerníveis que as revelações, sendo indicados pelo Concílio Vaticano Iº como “muito seguros e aptos à inteligência de todos” (Denz. 1790)

b) A aprovação da Hierarquia. Não é suficiente que um milagre aconteça no lugar da aparição para ser considerado prova de autenticidade desta. Mas se for aprovado pela Hierarquia da Igreja, torna-se outro critério positivo de discernimento.

 2. A autoridade da Igreja

            Se o Magistério da Igreja declara que os fiéis podem, com fundamento, acreditar numa aparição como autêntica, não há obrigação de acreditar nela. Porém. tal declaração é, sem dúvida, uma garantia  muito segura da autenticidade e pode ter um grande valor como critério de discernimento.

             Geralmente parece que a Santa  Sé nem aprova, nem condena, mas assume uma atitude de permissão. Mas a Santa Sé menciona aparições  como fatos autênticos, porque declarados assim e comprovados pela autoridade diocesana.

           A autoridade eclesiástica nem sempre adotou a mesma atitude no tocante as revelações ou aparições particulares. Usam-se, sobretudo, os critérios do papa Bento XIV, que ainda hoje orientam os processos de comprovação de milagres para a canonização dos santos.


A RESPONSABILIDADE DOS MINISTROS DA IGREJA

                É muito grande a responsabilidade da Hierarquia da Igreja no tocante a revelação ou a aparição particular. É preciso que ela estude e conheça bem as melhores normas de discernimento.

               Eis as principais:

                1. Não é preciso demonstrar especial interesse nem com o confidente, nem com suas revelações, nem demonstrar admiração, sobretudo se for o confessor do confidente. Ainda menos pedir a ele que consulte o Senhor sobre aspectos de sua vida ou da dos outros. Estas perguntas, diz S. Teresa, nem  agradam a Deus, nem Ele as quer (Cf Subida II,n.7-8).  Pode ser fácil e perigoso deixar-se guiar pelos confidentes.

                2. Nem por isso o padre espiritual do confidente deve agir com severidade  ou com dureza, mas ter uma atitude de acolhida e de bondade, permitindo que as almas possam confiar e se abrir.

                3. Não deve apressar-se para dar um parecer ou um julgamento, mesmo que o confidente queira logo uma resposta clara e precisa. Nada de precipitação, mas se fique observando tudo.

                4. A oração: é preciso rezar e fazer rezar, unindo a penitência à oração. Com a luz do Espírito Santo se entende melhor o que vem de Deus.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

7. ATUAIS DIFICULDADES DE REALIZAR ESTE DISCERNIMENTO



7.1. Por parte dos confidentes

Na hora de discernir o seu carisma, para os confidentes podem surgir estas dificuldades:

- Não ter paciência de entrar neste processo de discernimento, achando que pode prescindir do mesmo.
- Não ter a humildade de submeter toda a sua experiência de fé ao próprio pároco ou bispo.
- Não acreditar na ação de Deus com sua Hierarquia, por conhecer os defeitos, os limites e até as fraquezas de seus membros.
- Absolutizar o fato extraordinário, como se todo o resto de nossa fé não tivesse mais valor e tudo o mais fica em segundo plano.
- Não querer acatar as decisões da Hierarquia e querer desobedecer, sobretudo quando a proibição se limita ao uso simplesmente do dom.

7.2. Por parte da Hierarquia

Na hora de assumir o discernimento de confidentes a Hierarquia, por sua vez, pode se confrontar com estas dificuldades:

- Pensar que, diante de tantos desafios pastorais existentes, está se perdendo tempo em pensar nestas coisas.
- Não saber como realizar um discernimento destes fatos por falta de critérios objetivos, por pouco apoio e estímulo do ambiente.
- Não ter pessoas preparadas para esta tarefa. Até mesmo o bispo pode encontrar-se em dificuldade por causa de certo desconhecimento de tais fatos e da forma mais apropriada para enfrentá-los pastoralmente.
- Ter preconceito contra tudo que for extraordinário, por causa de certa educação racionalista, que impede de perceber algo que supere a lógica dos nossos esquemas.
-  Não saber dar disposições pastorais apropriadas para o povo que pode ficar confuso, sem entender a posição de seus padres e de seus bispos.

7.3. Por parte do padre espiritual

A difícil tarefa de acompanhar e orientar um confidente, pode também oferecer ao padre espiritual uma série de dificuldades, como por exemplo:

- Ser superficial em analisar as coisas e precipitado em emitir um parecer que não lhe compete.
- Não estar preparado para guiar um confidente e não saber como conduzir um fato carismático.
- Fazer pressões sobre o confidente ou reservar para si só o privilégio de acompanhar e beneficiar-se dos dons que o confidente apresenta.
- Deixar-se conduzir pelas pressões ou reações do clero local ou do seu bispo, que não aceitam estas coisas.
-Não ter tempo para dedicar-se ao estudo das mensagens ou dos fatos extraordinários, ficando num acompanhamento muito superficial do confidente.
- Amar os carismas mais do que a verdade, deixando-se assim levar pela pressa de julgar positivamente os fatos, sem nenhuma atitude crítica.

6. OBRIGATORIEDADE DO DISCERNIMENTO



O discernimento dos carismas não é somente algo útil e possível na Igreja, mas reveste um valor todo especial e também se torna algo obrigatório para o confidente e para a Hierarquia da Igreja.


6.1. Obrigatório para os confidentes


O dom recebido não é algo exclusivo para os confidentes, mas é destinado para a Igreja, para a construção do Reino de Deus. Por esta razão, nenhum carisma dispensa da referência e da submissão aos pastores da Igreja. Com palavras claras o Concílio Vaticano II escreve (LG 12): O juízo acerca da sua autenticidade e reto uso pertence àqueles que presidem na Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito, mas julgar e conservar o que é bom (Cf 1 Tes 5, 12, 19-21). Esta é necessária garantia que a estrada que percorreis é justa. ( João Paulo II)


Uma vez reconhecido e aprovado o dom especial do fiel, por parte da Hierarquia, ainda cabe a ela determinar o seu uso, os tempos e as formas mais apropriadas para o bem da comunidade eclesial. Pode até acontecer que, aprovado e reconhecido como um verdadeiro dom do Espírito, a Hierarquia ache que não seja oportuno, neste momento, o seu uso no meio do povo de Deus.


6.2. Obrigatório para a Hierarquia da Igreja


É a Hierarquia da Igreja que é chamada a discernir estas coisas pela natureza do seu ministério. A Igreja é constituída sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, e são os primeiros que recebem a missão de verificar as manifestações de Deus, ao longo da caminhada do povo cristão, que podem manifestar-se de múltiplas maneiras, às vezes até inesperadas. É um discernimento que não se limita a registrar a ortodoxia das afirmações contidas nas mensagens deste ou daquele confidente, mas de verificar se o que é proposto pode servir para edificar a Igreja, para o bem dos fiéis.

5. OS PROTAGONISTAS DO DISCERNIMENTO



Na hora de entrar diretamente no discernimento dos carismas é importante lembrar as palavras do Cardeal Carlos M. Martini, convidando para que se saiba superar uma situação típica do tempo de hoje, a de reduzir toda a experiência de fé segundo os próprios esquemas mentais e os critérios da cultura contemporânea, prescindindo de toda ação do Espírito Santo:

Ao mesmo tempo eu percebo grandes resistências à ação libertadora do Espírito Consolador. De um lado, a inclinação a absolutizar o próprio movimento ou a própria experiência espiritual, até o ponto de tornar coisa o carisma originário, fixando-o numa espécie de bagagem sobreposta, correndo o perigo de bloquear o processo de amadurecimento profundo e livre da pessoa.

De outro lado, a tendência a banalizar e a ironizar qualquer coisa que ultrapasse o já conhecido ou o já previsto; a pretensão de programar caminhos próprios ou de outrem, prescindindo de toda experiência vivida pelo Espírito, marginalizando-o entre as realidades supérfluas ou até alienantes. Isso acontece na vida de muitos batizados, quando a fé se enfraquece e a busca das coisas visíveis tira o lugar ao primado que deve ser dado às coisas invisíveis.

Quando na Igreja se faz necessário discernir os carismas de uma pessoa, surge espontânea a ideia de que o discernimento diga respeito somente ao confidente, que, por assim dizer, se torna objeto de exame por parte da Hierarquia ou das pessoas por ela destinadas para este fim.

Geralmente, porém, todo fato carismático tem como protagonista não somente o confidente, mas pelo menos estas outras pessoas: o padre espiritual; o grupo de apoio do confidentes; a Hierarquia da Igreja e a eventual comissão que ela instituir.

5.1. O primeiro discernimento é do confidente

Os dons carismáticos não exigem nenhuma predisposição por parte do sujeito que os manifesta e podem, de fato, ser dados a pessoas até em pecado mortal. Quem recebe os dons é simples instrumento da graça de Deus e nem por isso se torna mais santo. O que santifica é a graça do Espírito Santo que nos vem pela prática da caridade e do amor e pelos sacramentos.

Já vimos antes quais deveriam ser as características de um confidente. Aqui só acrescentamos que ele deve amar a verdade em si, mais do que os carismas e que cabe a ele, no íntimo de sua consciência, fazer um primeiro discernimento do dom, ficando sempre temeroso de poder enganar-se, perguntando-se se sobre a verdade do que está sentindo e experimentando.

Quando tiver interiormente a certeza de encontrar-se diante de algo que supera suas capacidades e seus conhecimentos ou de algo que apela para a comunidade eclesial, com humildade deverá, antes de manifestar-se publicamente, confrontar-se com um padre espiritual de sua confiança com o qual poderá abrir seu coração e averiguar o que está acontecendo.

5.2. O confidente se confronta com o padre espiritual

O padre espiritual deve ser um sacerdote de confiança do confidente, com o qual este possa se manifestar abertamente, sem receio de ser mal interpretado ou julgado. Sua tarefa principal consiste em apontar ao confidente qual deve ser a atitude a ser tomar diante de fenômenos extraordinários. Deve lembrar-lhe que muitas vezes as aparições, mensagens, locuções podem ser fruto de uma iniciativa pessoal do subconsciente e que podem multiplicar-se facilmente nas pessoas que se predispõem para isso. Mas que também podem ser uma riqueza da graça do Senhor que quer servir-se dele como seu instrumento.

5.3.  A importância do grupo de apoio

O grupo de apoio que se forma em redor da figura do confidente, é geralmente composto por pessoas que, aos poucos, se fixam ao redor do confidente por motivos vários: algumas querem ajuda-lo como sinal de reconhecimento e de gratidão, porque por meio dele se converteram ou receberam algum benefício espiritual; outras são as que mais perto colaboram com ele, transcrevendo e publicando as mensagens ou os fatos carismáticos; outras ainda que aconselham e tomam iniciativas várias; outras, enfim, que promovem peregrinações ou romarias ao lugar dos acontecimentos, etc. São sempre pessoas animadas de boas intenções e de fato muitas vezes são o sustento humano-psicológico, afetivo-espiritual e até material do confidentes. Devem prestar muita atenção em saber estar perto do confidentes sem manipulá-lo ou sem deixar-se condicionar por ele.

Aqui está, talvez, a função mais difícil e delicada destas pessoas na hora do discernimento, que exige muito despojamento e muito equilíbrio. Quase sempre a imagem do confidente e a apresentação do fato carismático chega através deste grupo de apoio, que se não for interiormente livre, pode manipulá-lo segundo sua visão pessoal de fé, sua maneira de entender as coisas de Deus, sua experiência eclesial.

5.4. A Hierarquia chamada a discernir e a reter o que é bom

Outro protagonista do discernimento é a Hierarquia da Igreja, chamada a assumir oficialmente esta tarefa, que lhe cabe pela sua própria vocação e missão. É o bispo local que é chamado a avaliar os fatos e, conforme os casos, deverá criar uma comissão ou encarregar alguém para ajudá-lo neste discernimento.

Quais são os critérios de discernimento que a Hierarquia da Igreja usa ainda hoje para discernir fatos extraordinários? Seguindo a tradição, podemos indicar estes critérios de discernimento:

5.4.1. Ortodoxia da mensagem

Não podem vir de Deus mensagens ou locuções que contenham erros de fé ou de moral. O conteúdo das manifestações sobrenaturais deve sempre ser conforme à sã doutrina e aos ensinamentos do Magistério da Igreja.

5.4.2. Mensagem elevada

O conteúdo das mensagens, no seu conjunto em algum dos seus elementos, deve ser superior à capacidade intelectual e cultural de quem as recebe. Uma mensagem, então, que não diz nada a mais que todos conhecem, não pode ser considerada sobrenatural.

5.4.3. Mensagem clara

O que Deus comunica a uma pessoa é sempre claro, transparente, luminoso. O divino passando pelo humano reveste a forma e a cor de quem recebe estas comunicações; mas a essência e a forma mesma que Deus quis comunicar ficam iguais.

5.4.4. O que for predito, acontece

Se há profecias, antes ou depois devem realizar-se. Só assim provam a autenticidade de tais mensagens e a veracidade da experiência do confidente. Devem ser, porém, profecias que possam ser confirmadas e não genéricas, mesmo sabendo que o profeta não é aquele que somente revela coisas futuras que poderão acontecer.

5.4.5. Bondade dos frutos

A palavra que vem de Deus traz sempre frutos bons (Mt 7, 16-20). Atenção ao pai da mentira que sabe transfigurar-se em anjo de luz ( 2 Cor 11,14). Os bons frutos devem ser duradouros e nunca mesclados de frutos maus.

5.4.6. Finalidade do fato carismático

As mensagens ou outros fatos carismáticos sempre têm sua finalidade própria, que deve ser frisada e centralizada, não se perdendo em aspectos secundários (ex. perfumes, sinais no céu, no sol, etc.), que só têm o sentido de chamar a atenção das pessoas que devem se converter.

Se as mensagens comunicadas não levam a uma finalidade, a nenhum gesto e obra concretos, mas permanecem somente num processo de exaltação, por parte do confidente ou eleva a curiosidade das pessoas por sinais e prodígios sem crescimento espiritual algum, sem mudança de vida, não podem vir de Deus. 

Quando Jesus realiza os seus milagres e prodígios não os fazia para exaltar-se, para aparecer, mas os realiza para uma finalidade. Podemos compreender isto, no episódio ocorrido quando visitava a região dos gerasenos e libertou o homem possuído com espírito imundo:

E, entrando ele no barco, rogava-lhe o que fora endemoninhado que o deixasse estar com ele. Jesus, porém, não lho permitiu, mas disse-lhe: Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes o quanto o Senhor te fez, e como teve misericórdia de ti. Ele se retirou, pois, e começou a publicar em Decápolis tudo quanto lhe fizera Jesus; e todos se admiravam. (Mc 5, 18-20)

Podemos agora entender que a libertação do endemoninhado não foi para outro motivo senão o de anunciar o amor e a misericórdia do Senhor e tudo o que ele faz por seu povo, por seus filhos e filhas.

Assim compreendemos que Deus não dá nenhum carisma extraordinário para a exaltação de ninguém, mas para a salvação e anúncio da boa nova, do seu projeto de amor.

4. AS CONDIÇÕES PARA UM VERDADEIRO DISCERNIMENTO


Não é possível iniciar um discernimento espiritual dos carismas sem ter as disposições necessárias para este momento importante da vida da comunidade eclesial. Querendo ajudar-nos a prática do discernimento, tornam-se imprescindíveis pelo menos estas condições:

4.1. Sentir-se realizado como pessoa humana

Em todos os envolvidos no discernimento dos dons de Deus, exige-se um grande equilíbrio no que dizem e no que fazem. Devem ser pessoas serenas e contentes, apesar de seus defeitos e de suas limitações, e que não deixem levar por frustrações, compensações afetivas. Um equilíbrio psíquico é indispensável, evitando a presença de pessoas que sofrem de esquizofrenia ou carregam fortes complexos em sua vida ou são sujeitas a alucinações.

4.2. Encontrar-se num momento sereno e tranquilo

Quem sofresse graves distúrbios na sua personalidade não teria condições para enfrentar um discernimento, pelo menos neste momento. É necessário que a pessoa se encontre num momento favorável e positivo: tenha um bom nível de autoestima; saiba apreciar a si mesma e aos outros; seja capaz de optar pela vida; saiba reconhecer o bom que existe nos outros e saiba perdoar suas falhas; esteja sempre pronto e alegre em servir. Já seriam sinais

Já seriam sinais contrários: uma autocrítica rigorista; uma hipersensibilidade à crítica; uma indecisão crônica; um desejo excessivo de agradar; uma culpabilidade neurótica. Assim como uma atitude de pessimismo, que se decepciona com quase tudo, que não sabe ver mais nada de bom e positivo em si e nos outros.

4.3. Intensificar a vida de oração

Para quem quer assumir seu compromisso de fé e de serviço à missão de Cristo é sempre necessário manter-se em união com Deus pela oração e intimidade com Ele. Ainda mais quando se apresentam momentos mais importantes e delicados de sua vida, como pode ser o discernimento dos dons de Deus. É justamente nestes momentos que se faz mais necessário pedir a luz e a força do Espírito Santo, prestando muita atenção à nossa maneira de rezar e mantendo um clima de união e de intimidade com o Senhor ao longo do dia.
É preciso muita luz do Espírito Santo para saber distinguir e examinar os “espíritos” ou as “moções”, movimentos do Espírito, mas também se faz necessário pedir muita força do Espírito Santo para poder levar a cumprimento as decisões tomadas no fim do discernimento.

4.4. Ser interiormente livre

Não poderia surtir efeito o discernimento se as pessoas envolvidas não possuíssem uma liberdade interior, que as faça interiormente desapegadas das coisas, das pessoas, dos lugares, enfim de tudo que possa condicionar qualquer decisão a ser tomada.

Assim como seria uma perda de tempo e não poderia chegar a decisões acertadas, quem entrasse no discernimento dos carismas com uma posição já tomada sobre o objeto a ser discernido ou movido por preconceitos que invalidariam e prejudicariam todo e qualquer processo de discernimento. É indispensável manter-se numa atitude de liberdade interior, de disponibilidade e abertura para qualquer possível sinal ou opção que aparecer como vontade de Deus. Enfim, ser ainda interiormente livre para ser capaz de assumir qualquer decisão que aparecer como deliberação final do discernimento realizado, de acordo ou contra o meu parecer, a minha posição pessoal.

4.5. Profundamente amante da verdade

O amor à verdade é condição indispensável para qualquer discernimento. Sem esta característica, se perde credibilidade e se coloca em dúvida qualquer decisão que venha a ser tomada. Para o discernimento dos dons de Deus, é necessário amar a verdade mais do que o extraordinário. Por isso, quem se encontra nesta atitude não tem medo de ser avaliado pela Hierarquia da Igreja, porque confia na ação de Deus nela, apesar de possíveis fraquezas ou defeitos, porque reconhece nela a função dada por Deus de discernir os dons do Espírito Santo.

Quem alimenta um profundo amor à verdade mantém uma renovada confiança em Deus e obedece à Hierarquia da Igreja em caso dela se manifestar contrária ao seu dom, porque confia na ação de Deus. O amor à verdade leva a pessoa a não gostar de aparecer, a ser temerosa em falar de fatos extraordinários e a estar com medo de enganar-se e de enganar os outros. Por isso, busca a ajuda de um padre espiritual e se deixa guiar por ele e pela Hierarquia.

PARA QUEM É O DISCERNIMENTO?


São João Evangelista, na sua primeira carta que nos deixou, convida todos a saberem examinar os espíritos, pois somente através do discernimento poderemos ter a certeza se são de Deus ou, pelo contrário, eles vêm do maligno:

Não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus, pois muitos falsos profetas vieram no mundo. Nisto reconheceis o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne é de Deus; e todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus; é este o espírito do anticristo. Dele ouvistes dizer que ele virá e agora ele já está neste mundo. (1 Jo, 1-3).

Não pensemos que o discernimento seja uma tarefa complicada ou difícil, que exija estudo ou outras qualidades de que a maioria do povo de Deus carece. Nada melhor que refazer-nos às palavras de Jesus Cristo que criticava os fariseus e doutores da Lei por não saber praticar o discernimento no cotidiano da vida e perder aquela capacidade de distinguir os sinais dos tempos, que todo homem de fé sabia fazer:

Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: ‘Vem chuva’, e assim acontece. E quando sopra o vento do sul, dizeis: ‘Vai fazer calor’, e isso sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu, e por que não sabeis o tempo presente? (Lc 12, 54-56)

Aprendam, portanto, a parábola da figueira quando seus ramos ficam verdes e as folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está perto. Vocês também quando virem todas estas coisas, fiquem sabendo que ele está perto, já está às portas (Mt 24, 12-13)

Esta capacidade de perceber a ação de Deus em nossa vida pessoal e em nossa história de povo de Deus é o que se espera no momento do discernimento, no qual nos dispomos a colher em nosso coração a vontade de Deus e a pô-la em prática.

O discernimento é um fato que cada vez mais deve entrar na vida do cristão, não somente em casos extraordinários, e sim no seu cotidiano. Quantas decisões  que tomamos ou estamos tomando ou iremos tomar, que precisam de um discernimento espiritual, pelo qual, orientados por critérios evangélicos, saibamos encontrar a vontade de Deus em nossa vida.
A escolha de uma profissão, de uma vocação, de um estado de vida (casamento, vida religiosa,etc.), de estudos, de amizades quantas vezes são tomadas por um certo imediatismo e não por um discernimento segundo os critérios evangélicos.

Assim como na vida eclesial precisamos do discernimento comum na escolha de agentes de pastoral, na hora de fixar prioridades pastorais e de tomar várias iniciativas para o bem da comunidade. Por isso foram criados os conselhos na vida da Igreja, em todos os níveis, para que todos aprendamos a examinar os “espíritos” e a perceber o que Deus espera da sua Igreja.

Nós, hoje, precisamos vivenciar muito a prática do discernimento na vida eclesial, temos que saber discernir os carismas, sobretudo aprender a examinar os dons do Espírito que parecem ter algo extraordinário na vida de certas pessoas e que, muitas vezes, são motivo de sofrimento para quem presume ter tais dons.