sexta-feira, 25 de novembro de 2011

7. ATUAIS DIFICULDADES DE REALIZAR ESTE DISCERNIMENTO



7.1. Por parte dos confidentes

Na hora de discernir o seu carisma, para os confidentes podem surgir estas dificuldades:

- Não ter paciência de entrar neste processo de discernimento, achando que pode prescindir do mesmo.
- Não ter a humildade de submeter toda a sua experiência de fé ao próprio pároco ou bispo.
- Não acreditar na ação de Deus com sua Hierarquia, por conhecer os defeitos, os limites e até as fraquezas de seus membros.
- Absolutizar o fato extraordinário, como se todo o resto de nossa fé não tivesse mais valor e tudo o mais fica em segundo plano.
- Não querer acatar as decisões da Hierarquia e querer desobedecer, sobretudo quando a proibição se limita ao uso simplesmente do dom.

7.2. Por parte da Hierarquia

Na hora de assumir o discernimento de confidentes a Hierarquia, por sua vez, pode se confrontar com estas dificuldades:

- Pensar que, diante de tantos desafios pastorais existentes, está se perdendo tempo em pensar nestas coisas.
- Não saber como realizar um discernimento destes fatos por falta de critérios objetivos, por pouco apoio e estímulo do ambiente.
- Não ter pessoas preparadas para esta tarefa. Até mesmo o bispo pode encontrar-se em dificuldade por causa de certo desconhecimento de tais fatos e da forma mais apropriada para enfrentá-los pastoralmente.
- Ter preconceito contra tudo que for extraordinário, por causa de certa educação racionalista, que impede de perceber algo que supere a lógica dos nossos esquemas.
-  Não saber dar disposições pastorais apropriadas para o povo que pode ficar confuso, sem entender a posição de seus padres e de seus bispos.

7.3. Por parte do padre espiritual

A difícil tarefa de acompanhar e orientar um confidente, pode também oferecer ao padre espiritual uma série de dificuldades, como por exemplo:

- Ser superficial em analisar as coisas e precipitado em emitir um parecer que não lhe compete.
- Não estar preparado para guiar um confidente e não saber como conduzir um fato carismático.
- Fazer pressões sobre o confidente ou reservar para si só o privilégio de acompanhar e beneficiar-se dos dons que o confidente apresenta.
- Deixar-se conduzir pelas pressões ou reações do clero local ou do seu bispo, que não aceitam estas coisas.
-Não ter tempo para dedicar-se ao estudo das mensagens ou dos fatos extraordinários, ficando num acompanhamento muito superficial do confidente.
- Amar os carismas mais do que a verdade, deixando-se assim levar pela pressa de julgar positivamente os fatos, sem nenhuma atitude crítica.

6. OBRIGATORIEDADE DO DISCERNIMENTO



O discernimento dos carismas não é somente algo útil e possível na Igreja, mas reveste um valor todo especial e também se torna algo obrigatório para o confidente e para a Hierarquia da Igreja.


6.1. Obrigatório para os confidentes


O dom recebido não é algo exclusivo para os confidentes, mas é destinado para a Igreja, para a construção do Reino de Deus. Por esta razão, nenhum carisma dispensa da referência e da submissão aos pastores da Igreja. Com palavras claras o Concílio Vaticano II escreve (LG 12): O juízo acerca da sua autenticidade e reto uso pertence àqueles que presidem na Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito, mas julgar e conservar o que é bom (Cf 1 Tes 5, 12, 19-21). Esta é necessária garantia que a estrada que percorreis é justa. ( João Paulo II)


Uma vez reconhecido e aprovado o dom especial do fiel, por parte da Hierarquia, ainda cabe a ela determinar o seu uso, os tempos e as formas mais apropriadas para o bem da comunidade eclesial. Pode até acontecer que, aprovado e reconhecido como um verdadeiro dom do Espírito, a Hierarquia ache que não seja oportuno, neste momento, o seu uso no meio do povo de Deus.


6.2. Obrigatório para a Hierarquia da Igreja


É a Hierarquia da Igreja que é chamada a discernir estas coisas pela natureza do seu ministério. A Igreja é constituída sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, e são os primeiros que recebem a missão de verificar as manifestações de Deus, ao longo da caminhada do povo cristão, que podem manifestar-se de múltiplas maneiras, às vezes até inesperadas. É um discernimento que não se limita a registrar a ortodoxia das afirmações contidas nas mensagens deste ou daquele confidente, mas de verificar se o que é proposto pode servir para edificar a Igreja, para o bem dos fiéis.

5. OS PROTAGONISTAS DO DISCERNIMENTO



Na hora de entrar diretamente no discernimento dos carismas é importante lembrar as palavras do Cardeal Carlos M. Martini, convidando para que se saiba superar uma situação típica do tempo de hoje, a de reduzir toda a experiência de fé segundo os próprios esquemas mentais e os critérios da cultura contemporânea, prescindindo de toda ação do Espírito Santo:

Ao mesmo tempo eu percebo grandes resistências à ação libertadora do Espírito Consolador. De um lado, a inclinação a absolutizar o próprio movimento ou a própria experiência espiritual, até o ponto de tornar coisa o carisma originário, fixando-o numa espécie de bagagem sobreposta, correndo o perigo de bloquear o processo de amadurecimento profundo e livre da pessoa.

De outro lado, a tendência a banalizar e a ironizar qualquer coisa que ultrapasse o já conhecido ou o já previsto; a pretensão de programar caminhos próprios ou de outrem, prescindindo de toda experiência vivida pelo Espírito, marginalizando-o entre as realidades supérfluas ou até alienantes. Isso acontece na vida de muitos batizados, quando a fé se enfraquece e a busca das coisas visíveis tira o lugar ao primado que deve ser dado às coisas invisíveis.

Quando na Igreja se faz necessário discernir os carismas de uma pessoa, surge espontânea a ideia de que o discernimento diga respeito somente ao confidente, que, por assim dizer, se torna objeto de exame por parte da Hierarquia ou das pessoas por ela destinadas para este fim.

Geralmente, porém, todo fato carismático tem como protagonista não somente o confidente, mas pelo menos estas outras pessoas: o padre espiritual; o grupo de apoio do confidentes; a Hierarquia da Igreja e a eventual comissão que ela instituir.

5.1. O primeiro discernimento é do confidente

Os dons carismáticos não exigem nenhuma predisposição por parte do sujeito que os manifesta e podem, de fato, ser dados a pessoas até em pecado mortal. Quem recebe os dons é simples instrumento da graça de Deus e nem por isso se torna mais santo. O que santifica é a graça do Espírito Santo que nos vem pela prática da caridade e do amor e pelos sacramentos.

Já vimos antes quais deveriam ser as características de um confidente. Aqui só acrescentamos que ele deve amar a verdade em si, mais do que os carismas e que cabe a ele, no íntimo de sua consciência, fazer um primeiro discernimento do dom, ficando sempre temeroso de poder enganar-se, perguntando-se se sobre a verdade do que está sentindo e experimentando.

Quando tiver interiormente a certeza de encontrar-se diante de algo que supera suas capacidades e seus conhecimentos ou de algo que apela para a comunidade eclesial, com humildade deverá, antes de manifestar-se publicamente, confrontar-se com um padre espiritual de sua confiança com o qual poderá abrir seu coração e averiguar o que está acontecendo.

5.2. O confidente se confronta com o padre espiritual

O padre espiritual deve ser um sacerdote de confiança do confidente, com o qual este possa se manifestar abertamente, sem receio de ser mal interpretado ou julgado. Sua tarefa principal consiste em apontar ao confidente qual deve ser a atitude a ser tomar diante de fenômenos extraordinários. Deve lembrar-lhe que muitas vezes as aparições, mensagens, locuções podem ser fruto de uma iniciativa pessoal do subconsciente e que podem multiplicar-se facilmente nas pessoas que se predispõem para isso. Mas que também podem ser uma riqueza da graça do Senhor que quer servir-se dele como seu instrumento.

5.3.  A importância do grupo de apoio

O grupo de apoio que se forma em redor da figura do confidente, é geralmente composto por pessoas que, aos poucos, se fixam ao redor do confidente por motivos vários: algumas querem ajuda-lo como sinal de reconhecimento e de gratidão, porque por meio dele se converteram ou receberam algum benefício espiritual; outras são as que mais perto colaboram com ele, transcrevendo e publicando as mensagens ou os fatos carismáticos; outras ainda que aconselham e tomam iniciativas várias; outras, enfim, que promovem peregrinações ou romarias ao lugar dos acontecimentos, etc. São sempre pessoas animadas de boas intenções e de fato muitas vezes são o sustento humano-psicológico, afetivo-espiritual e até material do confidentes. Devem prestar muita atenção em saber estar perto do confidentes sem manipulá-lo ou sem deixar-se condicionar por ele.

Aqui está, talvez, a função mais difícil e delicada destas pessoas na hora do discernimento, que exige muito despojamento e muito equilíbrio. Quase sempre a imagem do confidente e a apresentação do fato carismático chega através deste grupo de apoio, que se não for interiormente livre, pode manipulá-lo segundo sua visão pessoal de fé, sua maneira de entender as coisas de Deus, sua experiência eclesial.

5.4. A Hierarquia chamada a discernir e a reter o que é bom

Outro protagonista do discernimento é a Hierarquia da Igreja, chamada a assumir oficialmente esta tarefa, que lhe cabe pela sua própria vocação e missão. É o bispo local que é chamado a avaliar os fatos e, conforme os casos, deverá criar uma comissão ou encarregar alguém para ajudá-lo neste discernimento.

Quais são os critérios de discernimento que a Hierarquia da Igreja usa ainda hoje para discernir fatos extraordinários? Seguindo a tradição, podemos indicar estes critérios de discernimento:

5.4.1. Ortodoxia da mensagem

Não podem vir de Deus mensagens ou locuções que contenham erros de fé ou de moral. O conteúdo das manifestações sobrenaturais deve sempre ser conforme à sã doutrina e aos ensinamentos do Magistério da Igreja.

5.4.2. Mensagem elevada

O conteúdo das mensagens, no seu conjunto em algum dos seus elementos, deve ser superior à capacidade intelectual e cultural de quem as recebe. Uma mensagem, então, que não diz nada a mais que todos conhecem, não pode ser considerada sobrenatural.

5.4.3. Mensagem clara

O que Deus comunica a uma pessoa é sempre claro, transparente, luminoso. O divino passando pelo humano reveste a forma e a cor de quem recebe estas comunicações; mas a essência e a forma mesma que Deus quis comunicar ficam iguais.

5.4.4. O que for predito, acontece

Se há profecias, antes ou depois devem realizar-se. Só assim provam a autenticidade de tais mensagens e a veracidade da experiência do confidente. Devem ser, porém, profecias que possam ser confirmadas e não genéricas, mesmo sabendo que o profeta não é aquele que somente revela coisas futuras que poderão acontecer.

5.4.5. Bondade dos frutos

A palavra que vem de Deus traz sempre frutos bons (Mt 7, 16-20). Atenção ao pai da mentira que sabe transfigurar-se em anjo de luz ( 2 Cor 11,14). Os bons frutos devem ser duradouros e nunca mesclados de frutos maus.

5.4.6. Finalidade do fato carismático

As mensagens ou outros fatos carismáticos sempre têm sua finalidade própria, que deve ser frisada e centralizada, não se perdendo em aspectos secundários (ex. perfumes, sinais no céu, no sol, etc.), que só têm o sentido de chamar a atenção das pessoas que devem se converter.

Se as mensagens comunicadas não levam a uma finalidade, a nenhum gesto e obra concretos, mas permanecem somente num processo de exaltação, por parte do confidente ou eleva a curiosidade das pessoas por sinais e prodígios sem crescimento espiritual algum, sem mudança de vida, não podem vir de Deus. 

Quando Jesus realiza os seus milagres e prodígios não os fazia para exaltar-se, para aparecer, mas os realiza para uma finalidade. Podemos compreender isto, no episódio ocorrido quando visitava a região dos gerasenos e libertou o homem possuído com espírito imundo:

E, entrando ele no barco, rogava-lhe o que fora endemoninhado que o deixasse estar com ele. Jesus, porém, não lho permitiu, mas disse-lhe: Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes o quanto o Senhor te fez, e como teve misericórdia de ti. Ele se retirou, pois, e começou a publicar em Decápolis tudo quanto lhe fizera Jesus; e todos se admiravam. (Mc 5, 18-20)

Podemos agora entender que a libertação do endemoninhado não foi para outro motivo senão o de anunciar o amor e a misericórdia do Senhor e tudo o que ele faz por seu povo, por seus filhos e filhas.

Assim compreendemos que Deus não dá nenhum carisma extraordinário para a exaltação de ninguém, mas para a salvação e anúncio da boa nova, do seu projeto de amor.

4. AS CONDIÇÕES PARA UM VERDADEIRO DISCERNIMENTO


Não é possível iniciar um discernimento espiritual dos carismas sem ter as disposições necessárias para este momento importante da vida da comunidade eclesial. Querendo ajudar-nos a prática do discernimento, tornam-se imprescindíveis pelo menos estas condições:

4.1. Sentir-se realizado como pessoa humana

Em todos os envolvidos no discernimento dos dons de Deus, exige-se um grande equilíbrio no que dizem e no que fazem. Devem ser pessoas serenas e contentes, apesar de seus defeitos e de suas limitações, e que não deixem levar por frustrações, compensações afetivas. Um equilíbrio psíquico é indispensável, evitando a presença de pessoas que sofrem de esquizofrenia ou carregam fortes complexos em sua vida ou são sujeitas a alucinações.

4.2. Encontrar-se num momento sereno e tranquilo

Quem sofresse graves distúrbios na sua personalidade não teria condições para enfrentar um discernimento, pelo menos neste momento. É necessário que a pessoa se encontre num momento favorável e positivo: tenha um bom nível de autoestima; saiba apreciar a si mesma e aos outros; seja capaz de optar pela vida; saiba reconhecer o bom que existe nos outros e saiba perdoar suas falhas; esteja sempre pronto e alegre em servir. Já seriam sinais

Já seriam sinais contrários: uma autocrítica rigorista; uma hipersensibilidade à crítica; uma indecisão crônica; um desejo excessivo de agradar; uma culpabilidade neurótica. Assim como uma atitude de pessimismo, que se decepciona com quase tudo, que não sabe ver mais nada de bom e positivo em si e nos outros.

4.3. Intensificar a vida de oração

Para quem quer assumir seu compromisso de fé e de serviço à missão de Cristo é sempre necessário manter-se em união com Deus pela oração e intimidade com Ele. Ainda mais quando se apresentam momentos mais importantes e delicados de sua vida, como pode ser o discernimento dos dons de Deus. É justamente nestes momentos que se faz mais necessário pedir a luz e a força do Espírito Santo, prestando muita atenção à nossa maneira de rezar e mantendo um clima de união e de intimidade com o Senhor ao longo do dia.
É preciso muita luz do Espírito Santo para saber distinguir e examinar os “espíritos” ou as “moções”, movimentos do Espírito, mas também se faz necessário pedir muita força do Espírito Santo para poder levar a cumprimento as decisões tomadas no fim do discernimento.

4.4. Ser interiormente livre

Não poderia surtir efeito o discernimento se as pessoas envolvidas não possuíssem uma liberdade interior, que as faça interiormente desapegadas das coisas, das pessoas, dos lugares, enfim de tudo que possa condicionar qualquer decisão a ser tomada.

Assim como seria uma perda de tempo e não poderia chegar a decisões acertadas, quem entrasse no discernimento dos carismas com uma posição já tomada sobre o objeto a ser discernido ou movido por preconceitos que invalidariam e prejudicariam todo e qualquer processo de discernimento. É indispensável manter-se numa atitude de liberdade interior, de disponibilidade e abertura para qualquer possível sinal ou opção que aparecer como vontade de Deus. Enfim, ser ainda interiormente livre para ser capaz de assumir qualquer decisão que aparecer como deliberação final do discernimento realizado, de acordo ou contra o meu parecer, a minha posição pessoal.

4.5. Profundamente amante da verdade

O amor à verdade é condição indispensável para qualquer discernimento. Sem esta característica, se perde credibilidade e se coloca em dúvida qualquer decisão que venha a ser tomada. Para o discernimento dos dons de Deus, é necessário amar a verdade mais do que o extraordinário. Por isso, quem se encontra nesta atitude não tem medo de ser avaliado pela Hierarquia da Igreja, porque confia na ação de Deus nela, apesar de possíveis fraquezas ou defeitos, porque reconhece nela a função dada por Deus de discernir os dons do Espírito Santo.

Quem alimenta um profundo amor à verdade mantém uma renovada confiança em Deus e obedece à Hierarquia da Igreja em caso dela se manifestar contrária ao seu dom, porque confia na ação de Deus. O amor à verdade leva a pessoa a não gostar de aparecer, a ser temerosa em falar de fatos extraordinários e a estar com medo de enganar-se e de enganar os outros. Por isso, busca a ajuda de um padre espiritual e se deixa guiar por ele e pela Hierarquia.

PARA QUEM É O DISCERNIMENTO?


São João Evangelista, na sua primeira carta que nos deixou, convida todos a saberem examinar os espíritos, pois somente através do discernimento poderemos ter a certeza se são de Deus ou, pelo contrário, eles vêm do maligno:

Não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus, pois muitos falsos profetas vieram no mundo. Nisto reconheceis o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne é de Deus; e todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus; é este o espírito do anticristo. Dele ouvistes dizer que ele virá e agora ele já está neste mundo. (1 Jo, 1-3).

Não pensemos que o discernimento seja uma tarefa complicada ou difícil, que exija estudo ou outras qualidades de que a maioria do povo de Deus carece. Nada melhor que refazer-nos às palavras de Jesus Cristo que criticava os fariseus e doutores da Lei por não saber praticar o discernimento no cotidiano da vida e perder aquela capacidade de distinguir os sinais dos tempos, que todo homem de fé sabia fazer:

Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: ‘Vem chuva’, e assim acontece. E quando sopra o vento do sul, dizeis: ‘Vai fazer calor’, e isso sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu, e por que não sabeis o tempo presente? (Lc 12, 54-56)

Aprendam, portanto, a parábola da figueira quando seus ramos ficam verdes e as folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está perto. Vocês também quando virem todas estas coisas, fiquem sabendo que ele está perto, já está às portas (Mt 24, 12-13)

Esta capacidade de perceber a ação de Deus em nossa vida pessoal e em nossa história de povo de Deus é o que se espera no momento do discernimento, no qual nos dispomos a colher em nosso coração a vontade de Deus e a pô-la em prática.

O discernimento é um fato que cada vez mais deve entrar na vida do cristão, não somente em casos extraordinários, e sim no seu cotidiano. Quantas decisões  que tomamos ou estamos tomando ou iremos tomar, que precisam de um discernimento espiritual, pelo qual, orientados por critérios evangélicos, saibamos encontrar a vontade de Deus em nossa vida.
A escolha de uma profissão, de uma vocação, de um estado de vida (casamento, vida religiosa,etc.), de estudos, de amizades quantas vezes são tomadas por um certo imediatismo e não por um discernimento segundo os critérios evangélicos.

Assim como na vida eclesial precisamos do discernimento comum na escolha de agentes de pastoral, na hora de fixar prioridades pastorais e de tomar várias iniciativas para o bem da comunidade. Por isso foram criados os conselhos na vida da Igreja, em todos os níveis, para que todos aprendamos a examinar os “espíritos” e a perceber o que Deus espera da sua Igreja.

Nós, hoje, precisamos vivenciar muito a prática do discernimento na vida eclesial, temos que saber discernir os carismas, sobretudo aprender a examinar os dons do Espírito que parecem ter algo extraordinário na vida de certas pessoas e que, muitas vezes, são motivo de sofrimento para quem presume ter tais dons.


               

sexta-feira, 24 de junho de 2011

DO CONGRESSO " O ESPÍRITO SANTO E OS SEUS CARISMAS" - MOMENTO DE REFLEXÃO



O Espírito Santo e sua ação na história humana: critérios de discernimento
(Padre João Pedro Cornado, SJ)

1.       INTRODUÇÃO

Estamos vivendo num mundo e num momento da nossa história de povo de Deus todo especial, onde a presença do Espírito Santo se faz mais forte e viva. Parece estarmos vivendo o que o profeta Joel disse “Derramarei o meu espírito sobre todos os viventes. Os filhos e filhas de vocês se tornarão profetas; entre vocês, os velhos terão sonhos e os jovens terão visões” (Joel 3,1).
A nossa Igreja também, ao longo destes últimos anos, animada pela força do Espírito Santo, sente-se renovada, a partir, sobretudo do Concílio Vaticano II, por esta chuva de dons que o Espírito Santo está derramando sobre ela. Cabe lembrar aqui a belíssima comparação de S. Cirilo de Jerusalém, uma verdadeira catequese para os nossos dias:

“A água que Eu lhe der tornar-se - á nela uma fonte de água viva, que jorra para a vida eterna. Novo gênero de água esta que vive e jorra; mas jorra apenas sobre os que são dignos dela. Mas porque o Senhor dá o nome de água à graça do Espírito?
Certamente porque tudo tem necessidade de água: ela sustenta as ervas e os animais. A água da chuva cai dos céus e, embora caia somente do mesmo modo e na mesma forma, produz efeitos muitos variados. Não é, de fato, o mesmo, o efeito que produz na palmeira e na videira e assim em todas as coisas, embora a sua natureza seja sempre a mesma e não possa ser diversa de si própria. Na verdade, a chuva não se modifica a si mesma em qualquer de suas manifestações, mas ao cair sobre a terra, acomoda-se às estruturas dos seres que a recebem, dando a cada um deles o que necessita.
De maneira semelhante, o Espírito Santo, sendo único, com uma única maneira de ser e indivisível, distribui por cada um a graça como lhe apraz. E assim como a árvore ressequida, ao receber a água, produz novos rebentos, assim também a alma pecadora, produz frutos de justiça. O Espírito tem um só e o mesmo modo de ser, mas, por vontade de Deus e pelos méritos de Cristo, produz efeitos diversos.
Serve-se da língua de uns para comunicar o dom da sabedoria; ilumina a inteligência de outros com o dom da profecia. A este dá-lhe o poder de expulsar os demônios, àquele concede-lhe o dom de interpretar as divinas Escrituras. A uns fortalece-os na temperança, a outros ensina-lhes a misericórdia; a estes inspira a prática do jejum e os exercícios da vida ascética e àqueles a sabedoria nas coisas temporais; a outros prepara-os para o martírio. Enfim, manifesta-se de modo diferente em cada um, mas permanece sempre igual a Si mesmo, como está escrito: A cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum.
Branda e suave é a sua aproximação, benigna e agradável é a sua presença; levíssimo é o seu jugo. A sua vinda é precedida pelas irradiações resplandecentes da sua luz e da sua ciência. Ele vem como protetor fraterno: vem para salvar, curar, ensinar, aconselhar, fortalecer, consolar, iluminar a alma de quem O recebe, e depois, por meio desse, a alma dos outros.
E assim, como aquele que se encontrava nas trevas, ao nascer do sol recebe nos olhos a sua luz e começa a contemplar com clareza o que antes não via, também, o que se tornou, digno do dom do Espírito Santo, recebe na alma a sua luz e, elevado acima da inteligência humana, começa a ver o que antes ignorava”. (DA CATEQUESE DE S. CIRILO DE JERUSALÉM, bispo, séx.IV)

2.       É COMO A CHUVA QUE CAI

Esta chuva de dons extraordinários e de carismas, que, ontem como hoje, vem renovar a Igreja, exige de todos nós uma postura equilibrada que deveria manifestar-se desta forma:

2.1. Atitude de profunda gratidão diante dos carismas

Numa atitude de agradecimento, pois são dons de Deus para o bem do seu povo. Não se deve esquecer que todo carisma é fruto unicamente da gratuidade do Senhor e não é proporcional ao grau de santidade ou de amor para com Deus. Nunca os carismas podem ser considerados por alguém como passaporte para o céu ou atestado de santidade. Unicamente, eles se apresentam como um dom gratuito, que, pelo misterioso amor do Senhor, é oferecido a uma pessoa para confirma-la na fé, na sua vocação cristã e para ajudar a Igreja na sua caminhada de povo de Deus.
Devemos então resistir a toda tentação de sentir-nos donos dos carismas que o Espírito Santo pode distribuir entre nós, os seus fiéis, e favorecer uma atitude de profunda gratidão para com o Senhor nosso Deus, Trindade Santa, para que estes carismas sejam entendidos dentro do projeto do Pai, acolhido como sinal de amor profundo de Cristo para com a sua Igreja e assimilados como força viva do Espírito Santo para a renovação do Povo de Deus.
Nunca agradeceremos bastante o Senhor pelos dons recebidos em nossa vida pessoal e em nossa história de Igreja a caminho da Nova Jerusalém.

2.2. Atitude de oferecimento dos dons recebidos

Os dons de Deus devem despertar em nós uma atitude de entrega, de saber oferece-los para que estejam a serviço da comunidade eclesial e, portanto, devem ser apresentados à Hierarquia da Igreja e avaliados por ela, o qual, caso reconheça sua validade, deverá também estabelecer o seu uso ou aplicação na vida da comunidade eclesial, em vista ao bem comum da Igreja toda.
Saber oferecer os seus dons, assim como a Virgem Maria soube oferecer ao Pai o seu maior dom de sua vida, seu Filho Jesus Cristo. Aos olhos humanos que contemplavam aquele mistério de amor, que estava acontecendo em Nossa Senhora, podia aparecer inútil subir ao templo e apresentar ao Senhor o seu primogênito. O que foi direta do Espírito Santo, seu Filho Jesus, não devia obrigatoriamente submeter-se à Hierarquia do Templo e ser resgatado conforme o sentido e o costume da tradição judaica. Mas, o Senhor é um Deus que respeita as suas criaturas, os ama profundamente, age no máximo respeito das ordens das coisas e, portanto, não passa por cima do que ele tinha estabelecido para o povo de Israel, nem no caso de seu Filho.

2.3. Atitude de discernimento dos carismas

Seguindo este exemplo, todo cristão que recebe um dom especial de Deus não pode simplesmente dispor dele como achar melhor, mas saberá oferece-lo à atual Hierarquia do povo de Deus, para que primeiro reconheça nele a presença do amor do Pai e depois possa definir seu uso para o bem da Igreja.
Por isso, é necessário adquirir uma atitude de discernimento, de saber distinguir o que pode vir de Deus e o que pode vir da mesma pessoa. Torna-se importante conhecer o processo de discernimento que ajude a descobrir o que pode, de fato, ser útil para a Igreja, para que os dons de Deus sejam eficientes no meio de nós. Se é a Hierarquia da Igreja que deve manifestar-se diante dos dons comuns e carismas especiais, que aparecem entre os fiéis, cabe, porém, a todos os envolvidos assumirem com seriedade o processo de discernimento que necessariamente se impõe à comunidade eclesial.
Embora o discernimento seja um momento espiritual já conhecido na Igreja, pelos Santos Padres e pela tradição eclesial, de fato na nossa experiência religiosa parece que ele está sendo cada vez mais redescoberto na vida eclesial. Sem dúvida, para muitos o discernimento comunitário dos dons e carismas é algo novo que ainda está acontecendo e do qual todos nós nos sentimos marinheiros de primeira viagem.

3.0. O DISCERNIMENTO DOS CARISMAS

Tentaremos, então, traçar agora de que forma a Igreja deveria acolher, discernir e apresentar os carismas à comunidade eclesial, a fim de que todos nós, que somos parte deste povo de Deus, possamos ter uma postura correta diante desta chuva de dons, que o nosso Deus parece distribuir hoje não somente a nós católicos, mas às suas igrejas cristãs.
Esta última constatação torna o Movimento Carismático de Assis (MC) obrigatoriamente aberto ao diálogo ecumênico, sendo que esta chuva de dons não se restringe ao âmbito católico, mas está presente em outras igrejas cristãs. Será pelo diálogo e pela convergência dos carismas, presentes nestas outras igrejas cristãs, que poderemos contribuir muito eficazmente, também, para a unidade dos cristãos.
O nosso Centro de Estudos se sente profundamente empenhado em refletir e estudar esta convergência de dons e carismas, enquanto acompanha e acolhe tudo que o Espírito Santo está distribuindo aos seus filhos e filhas, para apresenta-lo à Hierarquia da Igreja.

3.1. O que vem a ser o discernimento?

São Paulo cita o discernimento como um dos dons, que o Espírito Santo suscita na comunidade de Corinto. É um dos vários dons que estão presentes e do qual mais precisam, neste momento, para superar as dificuldades e as discussões que estão surgindo no seio da comunidade eclesial:

“A um, o Espírito dá a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro o poder de fazer milagres; a outros a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos, a outro o poder de falar em línguas; a outro ainda o dom de interpretá-las” (1 Cor 12,8-10)

Se é um dom especial de alguém, que pode servir para ajudar os outros que encontram maiores dificuldades, torna-se, porém, uma obrigação de todos os cristãos, que querem assumir sua vida de fé e inserir-se plenamente no projeto de amor de Deus Pai. De fato, pelo batismo recebemos o Espírito Santo para que nos conduza à plenitude da verdade e nos abra aos tesouros do amor gratuito de Deus. Por isso, São Paulo escreve aos Corintos, confirmando-os na possibilidade de discernir os dons de Deus, sendo que Este lhes enviou o seu Espírito:

“Quem, pois, dentre os homens conhece a fundo a vida íntima do homem, senão o espírito do homem que está dentro dele? Da mesma forma, o que está em Deus, ninguém o conhece, senão o Espírito de Deus. Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecermos os dons da graça de Deus” ( 1 Cor 2,11-12)